Anne

Eu não poderia olhar nos olhos dela novamente. Da última vez meu coração havia sido arrancado ainda batendo e a ferida continuava aberta. Apesar de estar certa, ser impulsiva era de sua natureza. Eu tinha me apaixonado novamente por quem me faria sofrer. Eu sabia que seria assim e merecia de certa forma.


Tinha sido um dia de trabalho pesado, estou cansado até os ossos e, como sempre, me ajeito no sofá, ligo a televisão e abro minha cerveja. Apesar de ganhar pouco, momentos assim valiam a pena estar vivo. O telefone toca, é tarde da noite. Quem poderia ser? Não recebo ligação de ninguém. As vezes me pergunto quanto tempo iriam demorar para descobrir que eu morri caso tivesse um infarto. Vou atender.


- Alô - respondo com a voz transparecendo a indignação.

- É a Anne, podemos conversar? - Eu reconheceria essa voz no meio de uma multidão.

- O que quer de mim? - me sinto gelado.

- Olha, eu sei que faz tempo, mas podemos conversar? - A voz aparentava uma certa embriaguez.

- Não, adeus - respondi desligando o telefone.


Ele toca novamente. Não vou atender. Não posso. Nessas situações somente duas possibilidades existem, tomar decisões erradas ou esperar a ferida se curar, e eu preciso me curar. Mesmo depois de quatro meses eu ainda pensava nela.


Levanto para buscar outra cerveja. Encosto no armário da cozinha e me sinto muito bem. A voz da Anne seria capaz de acordar alguns demônios ao longo da semana, mas hoje não. Fecho os olhos, respiro fundo e tomo um gole. Dizer adeus a alguém que ainda mora em meus pensamentos é difícil. Sempre foi assim. Recorro a outro gole. Vai ficar tudo bem, eu consegui dizer adeus. Espero.