Neta

Amanheceu e o sol já veio me perturbar. A cortina estava emperrada e as luzes invadiam o quarto pela fresta do trilho enferrujado. Nada parece dar certo. Eu mereço pelo menos dormir em paz. Toda pessoa tem esse direito. Por que é tão difícil? Mas não vou reclamar. Já são onze horas e preciso de um café da manhã reforçado. A ressaca está me matando e para ajudar alguém colocou um vinil para tocar.


Me visto como sempre, um par de botas antigas, o velho jeans surrado e um casaco. Apesar do sol, o frio ainda paira no ar. Conto algumas moedas. Alguns pães já são suficientes para o final de semana.


Era costume eu me olhar no espelho antes de sair de casa. Nunca fui um sujeito vaidoso e o aparente olhar de cansado até dava um charme. Estou envelhecendo rápido. O grosso bigode entregava minha idade. Estou pronto, hora de dar uma volta.


Enquanto desço as escadas do prédio o som vai aumentando. A música é boa. Alguém acordou feliz. O instrumental de guitarra era uma das poucas coisas no mundo que realmente mexiam comigo. Eu sempre fui sentimental e, como sempre, o Blues era implacável com sujeitos assim.


As ruas estão movimentadas. Nunca entendi porque as pessoas acordam cedo em pleno sábado somente para passear. Talvez eu seja antissocial. Talvez seja a ressaca me deixando ranzinza. Não sei.


Entro na mercearia. Alguns poucos clientes na fila. Logo serei atendido.


- O tempo esfriou, não é mesmo? - pergunta uma senhora desconhecida.

- Sim, tempo louco - acrescento sem interesse

- Vim buscar alguns pães. Minha neta está chegando de viagem - comenta orgulhosa.

- Que bom - digo sorrindo.

- Próximo! - grita a atendente, me livrando de mais um papo furado.


É minha vez. Despeço da senhora sem me importar com sua história. Realmente não ligo. Nunca fui bom em conversar. Até poderia jogar conversa fora com desconhecidos mas em algum momento achava um jeito de terminar. Não tenho paciência para isso. As pessoas me cansam.


Volto para o apartamento. Os pães ainda estão quentes. Preparo um café forte. Talvez aquela senhora tenha razão, o tempo realmente esfriou. Quem sabe eu também tenha esfriado nesses anos.


Espero que a neta faça uma boa viagem. Como assim? O que está acontecendo comigo? Eu não me importo com estranhos. Eles não são meus amigos. Mas eu gostei dela, seu olhar carregava algo bom. Será sentimentalismo barato causado pelo vinho ainda no meu corpo? Ou culpa do Blues? Não, claro que não. É essa carência que todo homem solitário sente em algum momento da vida. Preciso de atenção. Qualquer uma.