Minha bagunça

Meu apartamento está uma bagunça. A poeira está em todos os cantos. Minha casa tem cheiro de bebida e cigarro. Estou incomodado com a situação. Ainda bem que não recebo visitas. Está na hora de limpar.


Coloco um vinil antigo. Quando o assunto é limpeza, só uma boa música para facilitar. Há anos escuto o mesmo disco e toda novidade musical eu trato com desprezo. Não que eu julgue o trabalho das outras pessoas, mas não tenho paciência para mudanças. As músicas que escutei por volta dos 20 anos são as que ficaram. De alguma forma elas combinam com meu estilo de vida.


Meu prédio existe há décadas. Acho interessante pensar em quantas pessoas já viveram aqui. Quantos amores e decepções. Nascimentos e partidas. E eu sou só mais um.

Ganho o suficiente para viver razoavelmente bem. Não sou famoso, nunca fiz algo chamativo. Tive alguns amores. Sou o típico cidadão mediano.


Por mais que eu reclame, esse espaço é meu universo, moro aqui há mais de 30 anos. A sensação é de que os anos estão passando cada vez mais rápidos. As crianças que corriam no hall até pouco tem atrás já estão casando. E eu aqui, sozinho como sempre.


Pronto. A casa está limpa. Até o ar ficou mais leve. Desço com o saco de lixo. Basicamente de latas de cerveja, embalagens de congelados e cinzas de cigarro. Meu estilo de vida é uma bomba relógio e sei que uma hora explodirá. Mas nunca penso nisso e, apesar de algumas dores nos joelhos, ainda vivo como se fosse imortal. Nunca não aprendi a viver e não se é importante também. Esse pouco me basta.